terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Meu Deus é como um pão partido...


"A Última Ceia" do artista alemão Padre Sieger Köder (1925–2015)
"A Última Ceia" do artista alemão Padre Sieger Köder (1925–2015)


Meu Deus é como um pão partido, distribuído entre nós.

Como não unir ao Seu Ofertório a minha voz?


Reunir tudo o que tenho e ver que nada resta enfim,

unido aos que nada têm, vazio de tudo o que é meu em mim.


Esvaziar os bolsos e notar: só restou o "eu" para entregar.

E oferecer-me! Pois nunca falta Deus a multiplicar.


Meu nome é "Cristiano"! Hoje nasci. Hoje morri. Da morte à vida, parti.

Desperta, tu! Levanta-te do chão! E Cristo viverá em ti!


Beato Christian de Chergé (1937-1996), um dos mártires da Comunidade de Tibhirine (Argélia). Inspiração para esta postagem.


* * *

Testamento de Dom Christian de Chergé

Aberto no Domingo de Pentecostes de 1996 
 

Quando se tem de enfrentar um A-DEUS...                 

Se acontecer um dia - e poderia ser hoje -
em que eu me torne uma vítima do terrorismo que agora parece pronto a engolir
todos os estrangeiros que vivem na Argélia,
gostaria que minha comunidade, minha Igreja e minha família
se lembrassem que minha vida foi DADA por Deus e a este país.

Peço-lhes que aceitem que o Único Mestre de toda vida
não desconheceu esta partida brutal.
Peço-lhes que rezem por mim:
pois como poderia ser eu digno de tal oferta?
Peço-lhes que consigam ligar esta morte às muitas outras mortes
que são da mesma forma violentas, mas esquecidas pela indiferença e o anonimato.
Minha vida não tem mais valor do que qualquer outra.
Nem também menos valor.

Em qualquer caso, ela não tem a inocência da infância.
Vivi o bastante para saber que sou também um cúmplice no Mal
que parece, infelizmente, prevalecer no mundo,
mesmo naquele mal que me mataria cegamente.
Gostaria que, quando vier o tempo, ter o momento de lucidez
que me permitira pedir o perdão de Deus
e de todos os seres humanos meus amigos,
e ao mesmo tempo perdoar com todo meu coração aquele que me matará.

Não desejo tal morte.
Parece-me importante declarar isto.
Não vejo, de fato, como poderia me alegrar
se este povo que amo for acusado indiscriminadamente de meu assassinato.
Responsabilizar um argelino, quem quer que seja,
seria um preço muito alto para pagar
para aquilo que talvez seja chamado "a graça do martírio",
especialmente se ele diz que agiu em fidelidade com o que acredita que seja o Islã.

Estou consciente da pecha que será jogada a todos os argelinos indiscriminadamente.
Também tenho consciência da caricatura do Islã que um certo islamismo encoraja.
É fácil salvar a própria consciência identificando-se nesta via religiosa
com as ideologias fundamentalistas de seus extremistas.

Para mim, a Argélia e o Islã são algo diferente: são um corpo e uma alma.
Disse isto bastante freqüentemente, creio eu,
sabendo que recebi aqui mesmo o verdadeiro caminho do Evangelho,
aprendido no joelho de minha mãe, minha primeira Igreja de fato,
na própria Argélia, e já inspirada com respeito por crentes muçulmanos.

Minha morte, claramente, parecerá justificar
aqueles que me julgam apressadamente ingênuo ou idealista:
"Deixe-o dizer-nos agora o que ele pensa sobre isto!"
Mas estas pessoas precisam compreender
que minha mais ávida curiosidade será então satisfeita.
Pois isto será o que serei capaz de fazer, se Deus assim o quiser -
imerso meu olhar naquele do Pai,
contemplarei com ele seus filhos do Islã da mesma forma como ele os vê,
todos radiantes com a glória do Cristo,
o fruto de sua Paixão, e cheio com o Dom do Espírito,
cuja alegria secreta será sempre de estabelecer a comunhão
e de remodelar a semelhança divina, brincando com nossas diferenças.

Por esta vida perdida, totalmente minha e totalmente deles,
agradeço a Deus que parece tê-la desejado inteiramente
para esta ALEGRIA em tudo e a despeito de tudo.
Neste AGRADECIMENTO, que resume minha vida inteira a partir de agora,
certamente incluo vocês, amigos de ontem e de hoje,
e vocês, meus amigos deste lugar,
junto com minha mãe e meu pai, minhas irmãs e irmãos e suas famílias --
cem vezes me foi dado a mais como prometido!

E também você, o amigo do meu momento final,
que não terá consciência do que estiver fazendo.
Sim, quero AGRADECER a você e este "A-DEUS" é para você
em quem eu verei a face de Deus.
E possamos nós dois encontrarmo-nos, os felizes bons ladrões no Paraíso,
se isto agradar a Deus, o Pai de ambos... Amen! In sha'Allah!

Algiers, 1 de dezembro de 1993                      
          Tibhirine, 1 de janeiro de 1994                               


+Christian 






terça-feira, 18 de novembro de 2025

Como será o dia da minha morte?

Como será o dia da minha morte?

Como será...

           ... o dia da minha morte?
Quero que seja de sol
e que não cesse o labor.


Como será o dia?
O meu dia?
Suspiro suave de alívio
por Aquele que me libertou.

Quero que seja de sol,
porque a noite já passou.


Mas, e se aquele dia
não for dia para mim,
mas tempestade e solidão?
Pai, me abandonarás, então!?

"Não!
Será, então, o grande arrebol!
Manhã nupcial,
parelha a do Salvador.
E há de haver só um hino ao Sol,
e há de haver só um hino ao Amor!"


Xilogravura de Albrecht Dürer - "A Última Ceia" (The Last Supper) - , criada em 1510 e parte da série A Grande Paixão.

Eu vos chamo amigos - homenagem aos irmãos trapistas

Iluminura de Chroniques abrégées des Anciens Rois et Ducs de Bourgogne. Países Baixos do Sul, c. 1485-1490: "São Bernardo de Claraval, capelão da Virgem Maria, saindo de sua casa a caminho da Borgonha".
A igreja representada não é a Abadia de Claraval, como seria de se esperar, mas a Igreja de São Servácio em Maastricht.

Eu vos chamo amigos

O servo se une pela comum ação,
Mas não compartilha a comum intenção. 

Esta a traz bem profundo o amigo
que por ter igual amor caminha comigo.

E, ainda que não seja como eu
pelo caminho que escolheu,

traz consigo a bonita certeza
de que, em tempos de forte correnteza,

apesar de separados por hábito, casa e bordão,
o amigo na hora da dor se faz
irmão.

 

Homenagem aos irmãos trapistas de Nossa Senhora do Novo Mundo: https://www.mosteirotrapista.org.br/

Caminho que leva à igreja abacial da
Abadia de Nossa Senhora do Novo Mundo, Campo do Tenente/PR


quarta-feira, 21 de maio de 2025

Poema para a noite

 Noite Estrelada Sobre o Ródano, 1888 - Vincent van Gogh

 

Ó noite, minha amiga!

Por que fui teu inimigo durante tantos anos?

De ti, que escondes em teu regaço, nas dobras do teu manto, o rosto amável do meu Senhor!

Aquele que me vê, sem que possa ser observado,

que me vê no escondimento do Seu Amor.

 

Ó noite, que trazes as chamas brancas das estrelas bordadas em teu manto,

ó noite da promessa das estrelas!

 

Ó noite da confiança e do abandono que, gentilmente, só me pedes um passo de cada vez.

Ó noite que me livras de mim mesmo

e dos meus projetos,

e que só admites o eco de uma única oração: "Faça-se!"

 

Ó noite que preenches tudo e me guardas para o grande dia do abraço sem fim,

que já é realidade agora,

de noite.

 

Ó noite, minha amiga e companheira, que não me guardas para ti mesma,

mas me devolves ao teu Autor.

 

Ó noite nupcial!

Por que fui teu inimigo durante tantos anos?

Ó noite da salvação!