quinta-feira, 7 de maio de 2020


Em quarentena.


  Nestes dias o despertador não tem tocado. Levanto-me antes do horário. Não deixo esse esboço de sepulcro me horizontalizar nem mais um minuto! Nunca gostei muito de chá de cama pela manhã.
  O passo entra gasto no banho e sai novo e cantando. Em geral são as 7h quando isso acontece. Quarto arrumado... hora de subir ao altar.
  Primeiro, a oração das horas e, logo, arrumo o altar para a celebração.
  Na sacristia estão os bilhetes: intenções, sétimos dias, santos, intenções, o país, a Igreja, pessoas, família, histórias, preocupações, preocupações, preocupações.
  Como ensina o Evangelho: “a cada dia basta o seu cuidado”.
  Agora devo cuidar somente d’Aquele que cuida de mim.
  Como olhar para Ele e não enxergar uma multidão em seu Sagrado Coração? Não sei.
  Tenho nomes, histórias, coisas que não sei, coisas que mal sei, coisas que sei mal. Levo todos comigo. Não subirei sozinho. Nunca subi sozinho ao altar.
  Enquanto me revisto, me reviso:
  “- Perdão, Senhor, pequei”.
  “- Como sou feliz por mais uma Santa Missa!”
  “- Ajudai-me, Jesus, meu amigo”.

  “- SEMPRE”.

  Os bancos da capela são poucos e estão todos vazios. Ainda bem que o isolamento social não chegou à sociedade da comunhão dos santos. Lembrei de uma história que ouvi há muito tempo: As igrejas são altas para que não falte lugar aos anjos.
  “- Meu anjo da guarda, doce companhia, não me faltes nunca, nem de noite, nem de dia”.
  Duas fileiras de bancos formam um corredor curto. Ouço os meus próprios passos que ecoam. Outra vez penso que estou só:
  “- Venha a fé, por suplemento, os sentidos completar!”
  Olho para o altar e me emociono. Ali está o Solitário solidário. Meu amor de braços abertos, entre o céu e a terra... só.
  “- Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.
  Eco e silêncio.
  Quem disse que o amor é sempre doce, errou. Ele é sempre quente. Nem tudo que é vivo é doce.
  Peço perdão com a alma naquela cruz e já não estou sozinho. A partir de agora, tudo é companhia: as leituras, o salmo, a meditação, as preces. Esta é a parte da missa que sempre foi mais pública.   Também as preces têm seu caráter universal, mas o silêncio do ofertório me faz sentir outra vez um eco na alma. Neste espaço vazio, sinto como se estivesse entre o céu e a terra... só.
  Comparecem o pão e o vinho, e começa o memorial. As oblatas são mudas. Nós lhes damos voz:
  “- Fruto da terra e do trabalho”. “- Fruto da videira e do trabalho”. “- Bendito seja o Senhor para sempre”.
  E a água? Tão humilde e tão generosa, ela limpa as mãos deste pobre pecador.
  Recito um canto e a alma solfeja cada uma das palavras.
  Chegamos às letras maiúsculas: “Tomai todos e comei!”. “Tomai todos e bebei”.
  É maiúsculo o momento. Eu Te olho:
  "- Estás vivo!"
  Tu me olhas e não há dúvida. Graças a Deus!
  “- Como sou feliz por mais uma Santa Missa! Viestes para todos, mas não todos estão aqui”.

  “- SEMPRE”.

  O Sangue molha o Corpo. “Olharão para aquele que traspassaram e baterão no peito, como em dolo pelo filho único”.
  “- Senhor, que esta comunhão não seja para mim causa de juízo e condenação, mas, por vossa bondade, seja sustento e remédio para a minha vida”.
  A Missa sempre será uma festa e um drama. Ainda que a mesa esteja repleta, sempre há um lugar vazio: Muitos os convidados... poucos os comensais.
  É o mesmo drama desde a primeira missa. O Senhor sempre o viu. Eu, no entanto, nem sempre o vi. Como estou longe de ter os mesmos sentimentos de Cristo!
  Limpo a patena e vejo que reflete luz. Alguns arranhões. Tomo cuidado ao recolocar o cálice.
  Silêncio.
  “- Oremos!”
  “- Deus eterno e todo-poderoso, que, pela ressurreição de Cristo, nos renovais para a vida eterna, fazei frutificar em nós o sacramento pascal e infundi em nossos corações a fortaleza desse alimento salutar. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.”
  “- Que esta benção chegue a todos os que mais a necessitam!”
  Confesso que é um alongamento cardíaco celebrar a Santa Missa. É como se o coração criasse mil braços e tentasse alcançar sempre mais longe, sempre mais longe, sempre mais longe.
  Dou um beijo sobre o linho do altar e instintivamente começo a cantarolar: “- Maria de Nazaré. Maria me cativou. Fez mais forte a minha fé e por filho me adotou”.
  Tudo pronto. Tudo guardado.
  Agora preciso esperar uns minutos para que a alma se acomode e seja capaz de agradecer.
  “- Ajudai-me, Jesus, meu amigo.
  - Senhor, eu fiz o que me mandastes. Sou um servo inútil. E ainda assim me convidais para esta santa ceia”.

 “- SEMPRE”.



quarta-feira, 25 de março de 2020


Solenidade da Anunciação


   Hoje celebramos a Solenidade da “Anunciação”. Este título indica um fato histórico descrito no Evangelho de são Lucas (cf Lc 1, 26-38): O Anjo Gabriel anunciou a Maria que ela seria a Mãe do Salvador.

   Isto é um fato surpreendente! Deus, que contrariou o Rei da Davi em seu desejo de construir-lhe um templo (cf 1Cr 17, 1-15), não dá a Maria uma ordem divina, mas pede seu consentimento. Assim como deu a Adão e Eva, antes do pecado, a capacidade de escolher (cf Gn 3, 2-3), agora, diante de uma Virgem que foi concebida sem pecado, ou seja, na mesma condição de nossos primeiros pais, também deu a Maria a capacidade de eleger. Deus pede o consentimento a Maria.

   E ela disse: “Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a vossa Palavra” (Lc 1, 38). E, como diz o Evangelho de são João: “O Verbo se fez carne, e pôr sua tenda entre nós” (Jo 1, 14).

   Este é o grande milagre que celebramos hoje. Mas, neste momento, ele está escondido a todos os mortais. E inclusive a totalidade dos anjos. Santo Inácio de Antioquia (séc I-II), discípulo direto de do apóstolo são João, o declara: "E permaneceram ocultos ao príncipe desse mundo (Satanás): A virgindade de Maria e seu parto, bem como a morte do Senhor - três mistérios que devem ser proclamados - realizados no silêncio de Deus". (Aos Efésios, 19)

   E porque Deus quis se ocultar no seio de Maria, deixando, ao princípio, que a luz de sua graça aparecesse somente nela, pelo que disse sua parente Isabel: “Quando a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio” (Lc 1, 44). Os cristãos comparam a Santíssima Virgem à estrela da manhã, pois é a estrela brilhante que anuncia o grande sol que virá.

   Como “Maria” é a mesma utilizada para o plural de “mar” em latim (mar, maris – maria), a cristandade uniu estes dois significados: Maria a estrela, a estrela do mar. Ponto de referencia para os navegantes durante a noite, mas que humildemente se esconde ante o fulgor inigualável do sol na abóboda celeste.

   Hoje podemos, então, ao celebrar a “Anunciação” rezar unidos a tantos cristãos que durantes mais de mil anos invocam Maria como estrela do mar, sinal seguro do salvador, estrela que aponta a Cristo, que é o porto seguro de nossa salvação.

   Primeiro com a poesia sem igual de são Bernardo de Claraval, século XII, e logo com um tradicional hino cristão: “Ave, Maris Stella” (Ave, Estrela do Mar).


Oração a Maria, Estrela do Mar
(São Bernardo de Claraval)

      E o nome da Virgem era Maria (Lc. 1, 27). Falemos um pouco deste nome que significa segundo se diz, Estrela do mar, e que convém maravilhosamente à Virgem Mãe. .... Ela é verdadeiramente esta esplêndida estrela que devia se levantar sobre a imensidade do mar, toda brilhante por seus méritos, radiante por seus exemplos.

      Ó tu, quem quer que sejas que te sentes longe da terra firme, arrastado pelas ondas deste mundo, no meio das borrascas e tempestades, se não queres soçobrar, não tires os olhos da luz desta estrela.

       Se o vento das tentações se levanta, se o escolho das tribulações se interpõe em teu caminho, olha a estrela, invoca Maria.

       Se és balouçado pelas vagas do orgulho, da ambição, da maledicência, da inveja, olha a estrela, invoca Maria.

       Se a cólera, a avareza, os desejos impuros sacodem a frágil embarcação de tua alma, levanta os olhos para Maria.

       Se, perturbado pela lembrança da enormidade de teus crimes, confuso à vista das torpezas de tua consciência, aterrorizado pelo medo do Juízo, começas a te deixar arrastar pelo turbilhão da tristeza, a despenhar no abismo do desespero, pensa em Maria.

       Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria.

       Que seu nome nunca se afaste de teus lábios, jamais abandone teu coração; e para alcançar o socorro da intercessão dEla, não negligencies os exemplos de sua vida.

       Seguindo-A, não te transviarás; rezando a Ela, não desesperarás; pensando nEla, evitarás todo erro.

       Se Ela te sustenta, não cairás; se Ela te protege, nada terás a temer; se Ela te conduz, não te cansarás; se Ela te é favorável, alcançarás o fim.
E assim verificarás, por tua própria experiência, com quanta razão foi dito: "E o nome da Virgem era Maria".


Ave, Maris Stella

Ave, do mar Estrela
De Deus mãe bela,
Sempre virgem, da morada
Celeste Feliz entrada.

Ó tu que ouviste da boca
Do anjo a saudação;
Dá-nos a paz e quietação;
E o nome da Eva troca.

As prisões aos réus desata.
E a nós cegos alumia;
De tudo que nos maltrata
Nos livra, o bem nos granjeia.

Ostenta que és mãe, fazendo
Que os rogos do povo seu
Ouça aquele que, nascendo
Pos nós, quis ser filho teu.

Ó virgem especiosa,
Toda cheia de ternura,
Extintos nossos pecados
Dá-nos pureza e bravura,

Dá-nos uma vida pura,
Põe-nos em vida segura,
Para que a Jesus gozemos,
E sempre nos alegremos.

A Deus Pai veneremos:
A Jesus Cristo também:
E ao Espírito Santo; demos
Aos três um louvor: Amém.



Ave, Maris Stella,
Dei mater alma,
Atque semper Virgo,
Felix caeli porta.

Sumens illud Ave,
Gabrielis ore,
Funda nos in pace
Mutans Evae nomen.

Solve vincla reis,
Profer lumen caecis,
Mala nostra pelle,
Bona cuncta posce.

Monstra te esse Matrem,
Sumat per te preces,
Qui pro nobis natus
Tulit esse tuus.

Virgo singularis,
Inter omnes mitis,
Nos, culpis solutos,
Mites fac et castos.

Vitam praesta puram,
Iter para tutum:
Ut, videntes Jesum,
Semper collaetemur.

Sit laus Deo Patri,
Summo Christo decus
Spiritui Sancto,
Tribus honor unus. Amen.

sexta-feira, 20 de março de 2020



VIA-SACRA

Texto baseado nas meditações de Sua Excelência Reverendíssima
Mons. ÂNGELO COMASTRI

"Para que não nos seja inútil o sacramento da paixão do Senhor, devemos imitar aquilo que recebemos e anunciar aos outros o que veneramos.
O clamor de Cristo fica sufocado em nós, se a língua não proclama aquilo em que o coração acredita. Para que esse clamor não seja sufocado em nós, é preciso que, na medida de suas possibilidades, cada um manifeste aos outros o mistério de sua vida nova". (São Gregório Magno)




Em nome do Pai e do Filho  e do Espírito Santo. Amém. 

PRIMEIRA ESTAÇÃO
Jesus é condenado à morte: um inocente é condenado.


Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos
Porque pela vossa Santa Cruz redimistes o mundo!


MEDITAÇÃO
Esta cena de condenação, nós a conhecemos bem:
é notícia de todos os dias!
Mas uma pergunta nos arde na alma:
por que é possível condenar Deus?

Por que Deus, que é Omnipotente, Se apresenta
com a veste da fragilidade?
Por que Deus Se deixa agredir pelo orgulho e a prepotência
e pela arrogância humana?
Por que Deus Se cala?

O silêncio de Deus é o nosso tormento,
é a nossa prova!
Mas é também a purificação
da nossa agitação,
é a cura do nosso desejo de vingança.

O silêncio de Deus
é a terra onde morre o nosso orgulho
e desabrocha a fé verdadeira,
a fé humilde,
a fé que não faz perguntas a Deus
mas entrega-se a Ele com a confiança de uma criança.

Pai-Nosso...

SEGUNDA ESTAÇÃO
Jesus é carregado com a Cruz: assumiu a nossas dores.




Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos
Porque pela vossa Santa Cruz redimistes o mundo!


MEDITAÇÃO
Na paixão de Cristo desencadeou-se o ódio,
o nosso ódio, o ódio de toda a humanidade.

Na paixão de Cristo
a nossa maldade reagiu contra a bondade,
o nosso orgulho explodiu, irritado,
à vista da humildade do cordeiro,
a nossa corrupção ressentiu-se
frente à pureza de Deus!

E assim nós… tornamo-nos a cruz de Deus!
Nós, rebeldes,
nós, com os nossos absurdos pecados,
construímos a cruz da nossa ansiedade
e da nossa infelicidade,
construímos a nossa punição.

Mas Deus toma a cruz sobre os ombros,
a nossa cruz,
e desafia-nos com a força do seu amor.
Deus toma a cruz!
Insondável mistério de humildade e bondade!
Mistério de humildade que nos faz corar
de sermos ainda tão orgulhosos!

Pai-Nosso...

TERCEIRA ESTAÇÃO
Jesus cai pela primeira vez: A fragilidade do homem


Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos
Porque pela vossa Santa Cruz redimistes o mundo!


MEDITAÇÃO

Segundo o modo humano de pensar, Deus não pode cair
… mas cai. Porquê?
Não pode ser um sinal de debilidade,
mas apenas um sinal de amor:
uma mensagem de amor para nós.

Caindo sob o peso da cruz,
Jesus recorda-nos que o pecado pesa,
...rebaixa e destrói,
o pecado pune e nos faz mal:
o pecado é um mal!

Mas Deus, que é o maior ofendido, nos ama;
por este amor Ele grita aos surdos,
a nós que não o queremos ouvir:
«Saí do pecado, porque vos faz mal.

Tira-vos a paz e a alegria;
separa-vos da vida e faz secar dentro de vós
a liberdade e a dignidade».
Saí! Saí!

Pai-Nosso... 

QUARTA ESTAÇÃO
Jesus encontra sua Mãe: A compaixão.



Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos
Porque pela vossa Santa Cruz redimistes o mundo!


MEDITAÇÃO
Cada mãe é transparência do amor,
é domicílio de ternura
é fidelidade que não abandona,
porque uma verdadeira mãe ama
mesmo quando não é amada.

Maria é a Mãe!
N’Ela a feminilidade é plena,
nem o amor é inquinado por regurgitações de egoísmo
que se engasgam no coração.

Maria é a Mãe!
O seu coração é fiel junto
do coração do Filho
e sofre e leva a cruz
e sente na própria carne
todas as feridas da carne do Filho.

Maria é a Mãe!
E continua a ser Mãe:
para nós, para sempre!

Ave-Maria...

QUINTA ESTAÇÃO


Jesus é ajudado por Simão de Cirene a levar a Cruz: O inesperado.

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos
Porque pela vossa Santa Cruz redimistes o mundo!


MEDITAÇÃO
Simão de Cirene,
tu és um pequeno, um pobre,
um desconhecido agricultor,
de quem não falam os livros de história.
E, contudo, tu fazes a história!

Escreveste um dos capítulos mais belos
da história da humanidade:
tu levas a cruz de um Outro,
tu a levantas,
impedindo que esmague a vítima.

Tu nos recordas que só seremos nós mesmos
se deixarmos de pensar só em nós.

Tu nos recordas que Cristo nos espera
na estrada, no vão das escadas,
no hospital, na prisão…
nas periferias das nossas cidades.

Será que O reconhecemos?
Ou morreremos no nosso egoísmo?


Pai-Nosso...

SEXTA ESTAÇÃO
A Verônica limpa o rosto de Jesus: A misericórdia.

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos
Porque pela vossa Santa Cruz redimistes o mundo!

MEDITAÇÃO
O rosto de Jesus está banhado de suor
regado de sangue
coberto de escarros.

Quem terá a coragem de se aproximar?
Uma mulher!
Uma mulher adianta-se
mantendo acesa a lâmpada da humanidade
… e enxuga o Rosto:
e revela o Rosto!

Quantas pessoas há hoje sem rosto!
Quantas à margem da vida,
na indiferença que mata os indiferentes.
De fato, só está vivo quem arde de amor
e se inclina sobre Cristo que sofre
e espera em quem sofre: hoje!

Sim, hoje! Porque amanhã já será tarde demais!

Pai-Nosso...

SÉTIMA ESTAÇÃO
Jesus cai pela segunda vez: O peso do pecado.


Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos
Porque pela vossa Santa Cruz redimistes o mundo!

MEDITAÇÃO
A nossa arrogância, a nossa violência, as nossas injustiças
pesam sobre o corpo de Cristo.
Pesam… e Cristo cai de novo
para nos mostrar o peso insuportável
do nosso pecado.

Mas o que é que hoje fere
o corpo santo de Cristo?
Certamente é dolorosa paixão de Deus
as agressões contra a família.

Hoje parece estar em ato
uma espécie de anti-Génesis,
um anti-desígnio, um orgulho diabólico
que pensa em cancelar a família.

O homem quereria reinventar a humanidade
modificando a própria gramática da vida
tal como Deus a pensou e quis.
Mas, substituir a Deus, sem ser Deus
é a mais louca arrogância,
é a aventura mais perigosa.

Que a queda de Cristo nos abra os olhos
e nos faça ver de novo o rosto belo
o rosto verdadeiro, o rosto santo da família.
O rosto da família que Deus quer,
da que todos temos necessidade.

Pai-Nosso...

OITAVA ESTAÇÃO
Jesus encontra as mulheres de Jerusalém: O remédio das lágrimas.

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos
Porque pela vossa Santa Cruz redimistes o mundo!


MEDITAÇÃO

O pranto das mães de Jerusalém
inunda de piedade o caminho do Condenado,
atenua a atrocidade duma execução capital
e recorda-nos que somos todos filhos:
filhos saídos dos abraços de uma mãe.

Mas o pranto das mães de Jerusalém
é apenas uma pequena gota
deste vale de lágrimas:
mães de crucificados, mães de assassinos,
mães de drogados, mães de terroristas,
mães de estupradores, mães de loucos:
… mas sempre mães!

O pranto, porém, não basta.

O pranto deve transvasar em amor que educa
em fortaleza que guia, em severidade que corrige,
em diálogo que constrói, em presença que fala!

O pranto deve impedir outros prantos!

Ave-Maria...

NONA ESTAÇÃO
Jesus cai pela terceira vez: As divisões entre os homens.

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos
Porque pela vossa Santa Cruz redimistes o mundo!

MEDITAÇÃO
Pascal argutamente observou:
«Jesus estará em agonia até ao fim do mundo;
é preciso não dormir durante este tempo».

Mas, neste tempo, onde agoniza Jesus?
A divisão do mundo em zonas de bem-estar
e em zonas de miséria… é, hoje, a agonia de Cristo.

De facto, o mundo é formado por dois compartimentos:
num compartimento desperdiça-se
no outro definha-se;
num morre-se de abundância
e no outro morre-se de indigência;
num teme-se a obesidade
e no outro invoca-se a caridade.

Por que não abrimos uma porta?
Por que não formamos uma única mesa?
Por que não entendemos que os pobres
são a cura dos ricos?

Por quê? Por quê? Por que somos tão cegos?

Pai-Nosso...

DÉCIMA ESTAÇÃO
Os soldados repartem entre si as vestes de Jesus: A dignidade.


Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos
Porque pela vossa Santa Cruz redimistes o mundo!


MEDITAÇÃO

Os soldados tiram a túnica a Jesus
com a violência de um ladrão,
e tentam roubar-Lhe também
o pudor.

Mas Jesus é o pudor, Ele é a dignidade
do homem e do seu corpo.

E o corpo humilhado de Cristo
torna-se acusação contra todas as humilhações
do corpo humano
criado por Deus como rosto da alma
e linguagem para exprimir o amor.

Mas hoje muitas vezes o corpo é vendido e comprado
nas calçadas das cidades,
nas calçadas das webcams,
nas casas que se fazem de calçadas.

Quando entenderemos que estamos a matar o amor?
Quando compreenderemos que, sem pureza,
o corpo não vive nem pode gerar a vida?

Pai-Nosso...

DÉCIMA PRIMEIRA ESTAÇÃO
Jesus é pregado na Cruz: A obediência salvadora.


Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos
Porque pela vossa Santa Cruz redimistes o mundo!


MEDITAÇÃO

Aquelas mãos que abençoaram a todos
estão agora pregadas na cruz,
aqueles pés que tanto caminharam
para semear esperança e amor
estão agora presos ao patíbulo.

Por quê, Senhor?
Por amor!

Por que a paixão?
Por amor!
Por que a cruz?
Por amor!

Por que é, Senhor, que não desceste da cruz
respondendo às nossas provocações?
Não desci da cruz
porque, caso contrário, teria consagrado a violência
como senhora do mundo, mas só o amor é a única força
que pode mudar o mundo.

Por que, Senhor, este preço tão oneroso?
Para vos dizer que Deus é Amor,

Amor infinito, Amor omnipotente.
Credes em mim?

Pai-Nosso...

DÉCIMA SEGUNDA ESTAÇÃO
Jesus morre na Cruz: O abandono.



Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos
Porque pela vossa Santa Cruz redimistes o mundo!

MEDITAÇÃO
Diz o insensato em seu próprio coração: Deus morreu!
Mas, se morre Deus, quem nos dará a vida?
Se morre Deus, o que é a vida?

A cruz não é a morte de Deus
mas é o momento em que se rompe
a frágil crosta da humanidade assumida por Deus
e começa a renovação da humanidade a partir do amor que se entrega.

“Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica somente grão... mas se morre, dá muito fruto”.

Da cruz nasce a vida nova de Saulo,
a conversão de Agostinho,
a pobreza feliz de Francisco de Assis,
a bondade irradiante de São Vicente;
o heroísmo de Maximiliano Kolbe,
a maravilhosa caridade de Santa Teresa de Calcutá,
a coragem de São João Paulo II,
da cruz nasce a revolução do amor:
por isso a cruz não é a morte de Deus,
mas é o aparecimento do seu Amor no mundo.


Bendita seja a cruz de Cristo!

(Silêncio) Gloria ao Pai...

DÉCIMA TERCEIRA ESTAÇÃO
Jesus é descido da Cruz e entregue a sua Mãe: A piedade.


Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemosPorque pela vossa Santa Cruz redimistes o mundo!

MEDITAÇÃO
O delito está consumado:
matamos Jesus!
E as chagas de Cristo reverberam
no coração de Maria,
visto que a única dor comparável a do Filho
é aquela da Mãe.

A Senhora da Piedade
grita, comove e fere
mesmo quem já está se acostumou a ferir.

A Senhora da Piedade! A nós parece-nos
ter compaixão de Deus
mas não, ao contrário,
é Deus que tem compaixão de nós.

A Senhora da Piedade! Nela a dor
não é desesperadora
e jamais o será,
porque Deus veio sofrer conosco.

E com Deus podemos nos desesperar?

Ave-Maria...

DÉCIMA QUARTA ESTAÇÃO
Jesus é sepultado: O silêncio.


Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos
Porque pela vossa Santa Cruz redimistes o mundo!

MEDITAÇÃO
Às vezes a vida parece-se
com um longo e triste Sábado Santo.
Tudo parece ter acabado,
parece que triunfa o malvado,
parece que o mal é mais forte que o bem.

Mas a fé faz-nos ver mais longe,
faz-nos vislumbrar as luzes dum novo dia
para além deste dia.

A fé nos garante que a última palavra
é a de Deus: somente a Deus!

A fé é, na verdade, a pequena lâmpada,
a única lâmpada que ilumina a noite do mundo:
e a sua luz humilde funde-se
com as primeiras luzes do dia:
o dia de Cristo Ressuscitado.

Assim, a história não acaba no sepulcro,
antes, explode no sepulcro:
assim tinha prometido Jesus,
assim aconteceu, e acontecerá!

Creio...



Pelas intenções do Santo Padre: Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória...